Para efeito de entendimento:


Paulo = meu pai.
Marisa = minha mãe.
Eduardo = meu irmão.
Lili = minha cachorra.
Lola = minha empregada.
Bê = minha melhor amiga.
Cal = minha única amiga da faculdade.

Eu faço faculdade de Direito.


Nomes posteriormente citados, serão posteriormente explicados.

Todos os nomes foram trocados.


sexta-feira, 14 de maio de 2010

Dia 14 de Maio

Ontem tava tudo indo bem, fui ao endócrino e emagreci 2 kg. Fiquei meio triste porque esperava emagrecer mais, mas é melhor que nada. Estava apreensiva porque achava que ele ia mandar eu parar de tomar Sibultramina, mas ele não mandou. UFA!
Depois, quando saimos do médico, fomos a padaria tomar café, a banca, onde ela me comprou uma revista de quartos*, e ao supermercado.
Quando voltamos pra casa, meus pais ficaram conversando na czinha e eu jogando no celular da minha mãe. Depois a minha tia e minha vó ligaram pra falar com ela, e meu pai foi buscar o Eduardo no teatro.
Até que, quando ele voltou, me pediu um favor.
-Suzane, você não quer levar o celular do Eduardo na assistência técnica?
Ele me pediu isso porque a assistência técnica fica MUITO perto da minha faculdade. Mas eu não queria. Primeiro, porque não queri fazer favor nenhum pro meu irmão, e segundo porque ia perder muito tempo lá.
Minha primeira resposta foi: Não vou fazer favor pro Eduardo.
Mas ele rebateu: O celular é do Eduardo. O favor é pra mim.
E a segunda resposta foi: Não vou ficar mil anos lá!
Que foi rebatida também: Você não precisa ficar mil anos lá, Suzane. Você vai e pega a senha. Se sua senha for 140 e estiver chamando 137, você fica. Se for 140 e estiver chamando 130, você vai embora.
Acabei cedendo, já que não tinha mais argumentos.
-Tudo bem, eu levo o celular lá, mas sabe porque eu não queria levar? Porque...
Nesse momento meu pai perdeu o controle. Empurrou a cadeira pra trás fazendo barulho e levantou bruscamente, me assustando e me fazendo parar de falar. Começou a gritar, já indo pra sala.
-TUDO BEM, SUZANE! PODE DEIXAR! PODE DEIXAR, EU LEVO O CELULAR LÁ! EU JÁ FALEI QUE O CELULAR É DO EDUARDO MAS O FAVOR É PRA MIM!
-Mas eu falei que vou levar! - Disse, tentando faze-lo parar. Eu estava com medo, de certa forma.
-NÃO, NÃO! PODE DEIXAR QUE EU LEVO! VOCÊ VAI VER QUANDO VOCÊ ME PEDIR ALGUMA COISA! VOCÊ NÃO FAZ UM FAVOR PRA GENTE NEM QUE MATE! DEIXA VOCÊ ME PEDIR ALGUMA COISA! NÃO ME PEÇA MAIS NADA!
E foi pra lá. Voltei a jogar o jogo no celular, fingindo que não me importava. Mas já não prestava mais atenção, me concentrava em conter minhas lágrimas, não deixando escapa-las, muito embora algumas já tivessem fugido.
Foi então que minha mãe, com um copo de leite, sentou na minha frente. E destruiu qualquer coisa que ainda podia restar inteira dentro de mim.
-Você podia ter ido lá. Fica do lado da sua faculdade. O seu pai tem que ir na hora do almoço, perder o almoço, ir correndo. Custa você ir quando sair da aula? Você não faz um favor pra gente.
Meu esforço se tornara inutil. Agora as lágrimas caiam, e minha garganta doía com a força que eu fazia para não vir mais choro. Mas não adiantava.
-Eu podia. - Respondi apenas.
Tentava desesperadamente secar, com as mãos, as lágrimas que não paravam de cair.
Depois de um momento de silência, minha mãe ainda fez um último comentário:
-Não adianta você ficar chorando porque levou bronca.
Pronto, acabou. Dei o celular a ela e subi, me tranquei em meu quarto. Escrevi cartas de despedida a quem eu achava que merecia e pesquisei métodos de suiícido na internet. Antes de deitar, coloquei um saco na minha cabeça e lacrei a ponta com minha fita crepe, mas minhas mãos, soltas, rasgaram-no quando comecei a asfixiar. Sempre frouxa, sempre medrosa.
Na segurança do meu quarto, chorei desesperadamente, até pegar no sono. Chorar dá sono.
Acordei triste e frustrada, principalmente por ainda estar viva. Fui pra escola a contragosto, praticamente forçada. Quando desci do carro falei tchau pro meu pai, que geralmente já não respondia por estar muito ocupado pegando um cigarro, e hoje que não respondeu mesmo. Fiquei sozinha na escola (a Cal não vai de sexta), e foi difícil. Precisei lutar, me segurar muito pra não perder o controle, pra não cair no choro, e escrevi algumas coisas (talvez depois escreva aqui).
A hora que voltei não quis almoçar e resolvi deitar na minha cama. Minha mãe perguntou o que eu tinha e eu falei que não era nada e pra ela me deixar em paz. Ela falou que eu não posso ficar igual um bichinho acuado só porque levei uma bronca. Se ao menos ela soubesse que é bem pior que isso.

---X---

Eu sei que pode parecer frescura eu não querer fazer o favor. Mas o Eduardo nunca faz nada pra mim, ele só sabe enxer meu saco e me xingar de gorda, rinoceronte, o dia inteiro. Há um tempo atrás ele me deu uma mordida e eu fiquei com o braço quase um mês roxo, e ninguém fez nada, nem bronca ele levou.

O Eduardo tem 15 anos, duas pernas, dois braços e uma boca, e não é retardado nem nada, ele pode muito bem se virar sozinho. Então era sim um favor que meu pai ia fazer pra ele e queria passar pra mim, então o favor era sim pro Eduardo. Quando as minhas coisas, tenho que ir atrás sozinha. Porque o Eduardo não pode ir atrás das dele?
Quando eu precisava ir tirar meu título de eleitor e não sabia onde ficava o lugar, meu pai não quis passar nem na rua pra eu ver onde era. Porque pro Eduardo ele pode fazer as coisas?

Eu também to de saco cheio dessa diferença qeu eles fazem entre nós!

---X---

*Estamos de mudança pra um apartamento novo. Tínhamos gostado mais de um usado que era bem melhor, mas já foi vendido, então teremos que ficar com esse mesmo, e preciso escolher como vai ser meu quarto.

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